Do coração de Milão, o panetone viajou pelo mundo nas malas e nos corações dos imigrantes italianos. Cada comunidade italiana levou consigo não apenas a receita, mas também as tradições, os rituais e o significado emocional que ele representa.

Especial Panetone | O Italiano que Conquistou o Mundo.

O panetone é uma das tradições natalinas mais antigas do mundo. Ele encanta não apenas por sua massa aerada e aromática, com recheios que já vão muito além das tradicionais frutas cristalizadas e passas, mas também por suas elegantes formas e ricas embalagens, que fazem do panetone uma excelente opção de presente de Natal.

Fonte: fabbri1905.com

Por esta razão, escolhemos este tema para o lançamento do Blog do Quem Fornece.

Vamos juntos explorar o universo do Panetone?

A origem do panetone

Há algumas lendas sobre a origem do panetone. Uma das mais conhecidas é a do ajudante de cozinha chamado Toni, que salvou o jantar da corte de Ludovico il Moro (1480 a 1499). Toni teria feito um pão com farinha de trigo, ovos, manteiga e frutas cristalizadas, para celebrar com seus amigos, mas gentilmente ofereceu a iguaria para ajudar o cozinheiro-chefe, quando este queimou uma sobremesa. O sucesso foi imediato e o “Pão do Toni” teria se transformado em “Panettone” com o passar do tempo. Uma outra versão fala de um nobre apaixonado que fez um pão especial para conquistar o sogro padeiro.

Particularmente, não confio muito nestas versões e acredito que a origem do panetone vem do Ritual do Tronco, uma tradição natalina do século XIII, na qual três pães grandes eram assados sobre um tronco na lareira. O chefe da família distribuía dois e guardava um para o ano seguinte, simbolizando continuidade e prosperidade. É dessa tradição do pão grande que provavelmente surgiu o nome panettone, seu nome original em italiano.

Não há registros sobre isso, mas deduzo que o terceiro pão era guardado para a festa de San Biagio (São Brás), celebrada no dia 3 de fevereiro. Para os católicos, comer o Pão de São Brás protege de doenças da garganta e contra resfriados.

Ritual do Tronco, uma tradição natalina nascida no século XIII, na qual três pães grandes eram colocados sobre um tronco na lareira. Dois eram distribuídos pelo chefe da família, enquanto o terceiro era guardado para o ano seguinte, simbolizando continuidade e prosperidade. É dessa tradição que provavelmente surgiu o nome panetone — o pão grande.
Ritual do Tronco

Um pouquinho de História

Na Europa medieval, o consumo de pães de farinha de trigo de alta qualidade era reservado à aristocracia. Para o resto da população, havia pães de milho, centeio ou cevada, que eram mais baratos.

Em 1395, quando os ventos renascentistas já começavam a soprar, o Decreto de Milão permitiu o uso do trigo durante o período natalino. Com isso, o Ritual do Tronco tornou-se ainda mais especial, com o chefe da família distribuindo o “pão grande” de trigo (um símbolo de fartura e prosperidade) a todos os presentes.

O que faz o Panettone ser tão especial?

O panetone possui diversas características que o tornam único.

A fermentação natural é o grande segredo. O panetone tradicional usa massa madre (levain), uma mistura de farinha e água, que se desenvolve lentamente. A cada dia, descarta-se uma parte e “alimenta-se” a massa com mais farinha e água fresca. Após um período de 5 a 7 dias, obtém-se uma cultura ativa e borbulhante, pronta para uso. Sendo cuidada adequadamente, a massa madre pode durar indefinidamente e há padarias que possuem levains centenários!

Este lindo vídeo da Fiasconaro mostra um pouco do fascínio da producao do panetone:


A lenta fermentação desenvolve sabores complexos e dá a textura aerada impossível de se reproduzir com fermentos químicos rápidos.

A textura é inconfundível: extremamente leve e aerada, mas ao mesmo tempo úmida e que dissolve na boca, resultado da alta hidratação e do processo de se trabalhar a massa lentamente, incorporando uma grande quantidade de ar.

Ingredientes selecionados: a versão tradicional leva muita manteiga (de  30 a 40% do peso da farinha), gemas de ovos e uma porção generosa de frutas cristalizadas e passas de qualidade. Ao longo do tempo, ousadas variações foram criadas, também uma consequência da internacionalização do panetone. Veja mais sobre isso em Além da Tradição: Como a Inovação está Transformando o Mercado de Panetones.

O resfriamento de cabeça para baixo evita que o panetone murche enquanto ainda está quente e delicado.
Fonte: Silvia Rao | Pixabay

O resfriamento de cabeça para baixo – No início do século XX, Angelo Motta e Gioacchino Alemagna padronizaram a receita. Utilizando um molde de papel, criaram a versão alta, em formato de cúpula, que conhecemos. Motta também implementou o resfriamento de cabeça para baixo, que evita que o panetone murche enquanto ainda está quente e delicado.

Embalagens icônicas. Sendo um produto originário de Milão, Capital Italiana da Moda e do Design, o panetone não poderia deixar de brilhar também nas embalagens. Afinal, como diz um ditado, “os olhos comem junto”! Vamos explorar mais este tema em Embalagens de Panetone | Quando a Culinária Encontra o Design

Todo esse cuidado artesanal e tempo de preparo tornam o panetone incomparável a qualquer outro pão doce. É praticamente uma obra-prima da Panificação!

Itália | Criadora e Guardia do Panetone

Os italianos não apenas criaram o panetone, mas também preservam a tradição da produção artesanal. Há até uma competição oficial, a Panettone World Championship, que é realizada nas cidades de Verona e Milão, onde tudo começou. O evento é organizado pela Accademia dei Maestri del Lievito Madre e del Panettone Italiano desde 2019.

A Copa do Mundo do Panetone reúne equipes de diversos países, competindo em categorias que incluem o panetone clássico, de chocolate, inovador e decorado. A competição exige rigor absoluto e todos os ingredientes devem ser italianos. O corpo de jurados inclui mestres confeiteiros, campeões de edições anteriores, jornalistas especializados e especialistas italianos que avaliam cada detalhe: estrutura, alveolatura (os “buracos” na massa), aroma, equilíbrio de sabores, qualidade e distribuição das frutas.

A "Squadra Brasile", que conquistou o segundo lugar mundial na categoria panetone de chocolate na Copa do Mundo do Panetone em 2025, na competição de equipes.
Fonte:

Em 2025, a equipe “Squadra Brasile”, liderada pelo cearense Brunno Malheiros (Cheiro do Pão – CE) e composta por Joze Nilson Diniz (Artesian Bakery- SP)Matheus Andrade (RN) e Déborah Zanzini (SP), conquistou o segundo lugar mundial na categoria panetone de chocolate. Foi a primeira participação do Brasil na competição por equipes, e o resultado alçou o país à elite mundial da panificação artesanal.

A Expansão Global | De Milão para o Mundo

Do coração de Milão, o panetone viajou pelo mundo nas malas e nos corações dos imigrantes italianos. Cada comunidade italiana levou consigo não apenas a receita, mas também as tradições, os rituais e o significado emocional que ele representa.

Do coração de Milão, o panetone viajou pelo mundo nas malas e nos corações dos imigrantes italianos. Cada comunidade italiana levou consigo não apenas a receita, mas também as tradições, os rituais e o significado emocional que ele representa.

Nos países que receberam grandes levas de imigrantes italianos, como Argentina, Estados Unidos (principalmente em cidades com grandes comunidades italianas como Nova York e Chicago) e Austrália, o panetone se tornou tão popular quanto no Brasil, sendo considerado essencial nas celebrações de fim de Natal.

O panetone conquistou até países sem ligação histórica com a Itália, como o Japão, Taiwan, China e Peru. Confeiteiros japoneses, por exemplo, participam de competições internacionais, trazendo suas próprias interpretações técnicas e estéticas.

Veja o papel da Bauducco na história do panetone no Brasil: Bauducco | A Marca que se Tornou Sinônimo de Panetone

Um Clássico com Muitas Interpretações

O panetone é prova de que a verdadeira tradição não precisa ser estática e ela pode se adaptar sem perder sua identidade original.

A competição mundial de 2025 ilustra perfeitamente essa expansão: equipes de nove países de quatro continentes — Argentina, Austrália, Brasil, China, Alemanha, Japão, Peru, Espanha e Taiwan — se reuniram em Milão, mesclando sua identidade cultural com a tradição italiana.

O resultado desta simbiose cultural foi o surgimento de criações regionais e exóticas, que só enriquecem sua longa história. Onde quer que o panetone chegue, ele se mistura com os sabores locais, gerando novas interpretações, que só enriquecem sua história. Como esta delícia da Dengo, recheada com a nossa brasileiríssima goiabada.

Panetone Dengo com recheio de goiabada embalado em lenço reutilizável.
Fonte: Dengo.com.br

Vamos explorar este tema no post Além da Tradição: Como a Inovação está Transformando o Mercado de Panetones.

Um Presente Carregado de Simbolismo

Dar um panetone de presente é um gesto que carrega um forte simbolismo. É oferecer abundância, desejar prosperidade e expressar o desejo de que aquela pessoa esteja bem alimentada, no corpo e na alma.

Servido inteiro à mesa, o panetone é um símbolo de comunhão familiar, continuidade, boa sorte para o ano seguinte. Tradição com raízes centenárias;  um eco distante do antigo Ritual do Tronco.

No Brasil, o panetone se tornou um dos presentes corporativos mais populares do fim de ano. Empresas distribuem panetones aos funcionários como forma de agradecimento e reconhecimento. Muitos aguardavam ansiosos as cobiçadas latas da Bauducco.

Embora a Bauducco seja líder de mercado, algumas marcas brasileiras vêm ganhando cada vez mais espaço, especialmente no segmento premium, como a Cacau Show, a Dengo e a Ofner, com criações artesanais, opções variadas com sabores especiais. Também há alternativas veganas, sem glúten, sem lactose ou sem açúcar.

Minipanetone Équilibre sem glúten.
Fonte: https://loja.equilibresemgluten.com.br/

Entre marcas nacionais e importadas, há opções para todos os bolsos e gostos. Para quem deseja surpreender com um presente elegante e diferenciado, os panetones artesanais são uma excelente escolha.

Ao partir seu próximo panetone, lembre-se de que está participando de uma tradição que une milhões de pessoas ao redor do mundo, atravessou séculos de história e celebra o que há de mais precioso: os laços que nos unem.

Feliz Natal!

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